segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Usando Machado como desculpa.


“Assim que, eu não era capaz de resolver de momento um problema filosófico ou linguístico, ao passo que ele podia somar, em três minutos quaisquer quantias (...) a natureza é simples, a arte é atrapalhada”.



Não me lembrava dessa passagem divertidíssima de Dom Casmurro! Trata-se de um diálogo entre Bentinho e Escobar em alguma parte solta da história. Temos muitas partes soltas nesse livro, conversas “nada a ver” como as longas tomadas do Tarantino sobre massagem nos pés (Pulp Fiction) ou sobre “Like a Virgen” da Madonna (Cães de Aluguel). Embora ache a história interessantíssima (superlativos aqui não são mera coincidência!) preciso confessar que gosto muito desses relances de pensamento, como se muito lhe tomasse a cabeça e não fosse possível atribuir tudo a uma única história.

De qualquer forma, nesse momento ele faz uma comparação descarada entre os números , atribuições de Escobar, e as letras e palavras, que seriam de seu domínio. Aproveita o gancho para fazer uma análise de caráter, onde, em lógica conclusão, as pessoas dos algarismos seriam simples e diretas e os amantes dos signos, pessoas complexas e atrapalhadas. Reticente que sou a pré-julgamentos, tirei alguns minutinhos do meu tempo para analisar essa situação. Mas Machado de bobo não tem nada e ele mesmo deve ter pensado muito antes de reduzir personalidade dessa forma. Sendo assim, claro, descobri que ele, mais uma vez, tinha razão.



Para dominar as palavras e os pensamentos precisamos, acima de tudo de tempo e de uma capacidade de abstração fora da média. Quem é apaixonado pela contas, resolve sua vida em poucos minutos, talvez perca um pouco mais de tempo em uma ou outra questão que lhe exija ir além, mas está tudo ali, como 2 e 2 são 4. É sempre muito consolador. Se você não chegou à resposta é porque ainda não percebeu o caminho, mas ela está ali, invariavelmente, porque ela é lógica e a natureza da lógica é a de sempre estar ali.



Ao contrário de quem procura por respostas insanas para questões cujas variáveis variam enlouquecidamente entre x, y e z, que também podem ser a, g ou m, porque não? Pode estar na consciência, no coração, na moral e na antropologia. Quando se fala de ciências humanas, tudo é sempre fluido, tudo faz sentido e deixa de fazer no minuto seguinte.



Procuro ser uma pessoa racional em relação a minha vida e tenho uma tendência a buscar o meu 4 em todas as nuances que encontro pelo caminho. Mas, indiscutivelmente, sou uma pessoa das letras, alguém que busca entender e saber e perguntar e que muda de opinião como quem troca de roupa. Chego a conclusão de que sou uma trapalhada ambulante, assim como nosso amigo afirmou através de Escobar: “A natureza é simples, a arte é atrapalhada”. Ainda bem que ambas são lindas...



Você pode me perguntar, e daí? e achar esse texto completamente sem propósito. Peço desculpas mas exerço aqui um pouco do meu egoísmo tentando descobrir um pouquinho mais sobre eu mesma. Uso Machado como desculpa: se ele pode se dar ao luxo de divagar sobre as pessoas, eu me permito uma auto análise pública. Ato falho, eu sei, mas perdoável, convenhamos..

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
"No meio do caminho tinha uma pedra... tinha uma pedra no meio do caminho"