“Assim
que, eu não era capaz de resolver de momento um problema filosófico ou
linguístico, ao passo que ele podia somar, em três minutos quaisquer quantias
(...) a natureza é simples, a arte é atrapalhada”.
Não
me lembrava dessa passagem divertidíssima de Dom Casmurro! Trata-se de um diálogo
entre Bentinho e Escobar em alguma parte solta da história. Temos muitas partes
soltas nesse livro, conversas “nada a ver” como as longas tomadas do Tarantino
sobre massagem nos pés (Pulp Fiction) ou sobre “Like a Virgen” da Madonna (Cães
de Aluguel). Embora ache a história interessantíssima (superlativos aqui não
são mera coincidência!) preciso confessar que gosto muito desses relances de
pensamento, como se muito lhe tomasse a cabeça e não fosse possível atribuir
tudo a uma única história.
De
qualquer forma, nesse momento ele faz uma comparação descarada entre os números
, atribuições de Escobar, e as letras e palavras, que seriam de seu domínio.
Aproveita o gancho para fazer uma análise de caráter, onde, em lógica conclusão,
as pessoas dos algarismos seriam simples e diretas e os amantes dos signos,
pessoas complexas e atrapalhadas. Reticente que sou a pré-julgamentos, tirei
alguns minutinhos do meu tempo para analisar essa situação. Mas Machado de bobo
não tem nada e ele mesmo deve ter pensado muito antes de reduzir personalidade
dessa forma. Sendo assim, claro, descobri que ele, mais uma vez, tinha razão.
Para
dominar as palavras e os pensamentos precisamos, acima de tudo de tempo e de
uma capacidade de abstração fora da média. Quem é apaixonado pela contas,
resolve sua vida em poucos minutos, talvez perca um pouco mais de tempo em uma
ou outra questão que lhe exija ir além, mas está tudo ali, como 2 e 2 são 4. É
sempre muito consolador. Se você não chegou à resposta é porque ainda não
percebeu o caminho, mas ela está ali, invariavelmente, porque ela é lógica e a natureza da lógica é a de sempre estar ali.
Ao
contrário de quem procura por respostas insanas para questões cujas variáveis
variam enlouquecidamente entre x, y e z, que também podem ser a, g ou m, porque
não? Pode estar na consciência, no coração, na moral e na antropologia. Quando
se fala de ciências humanas, tudo é sempre fluido, tudo faz sentido e deixa de
fazer no minuto seguinte.
Procuro
ser uma pessoa racional em relação a minha vida e tenho uma tendência a buscar
o meu 4 em todas as nuances que encontro pelo caminho. Mas, indiscutivelmente,
sou uma pessoa das letras, alguém que busca entender e saber e perguntar e que
muda de opinião como quem troca de roupa. Chego a conclusão de que sou uma
trapalhada ambulante, assim como nosso amigo afirmou através de Escobar: “A
natureza é simples, a arte é atrapalhada”. Ainda bem que ambas são lindas...
Você pode me perguntar, e daí? e achar esse texto completamente sem propósito. Peço desculpas mas exerço aqui um pouco do meu egoísmo tentando descobrir um pouquinho mais sobre eu mesma. Uso Machado como desculpa: se ele pode se dar ao luxo de divagar sobre as pessoas, eu me permito uma auto análise pública. Ato falho, eu sei, mas perdoável, convenhamos..
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