Existiu
um tempo em que eu, uma apaixonada pelo cinema cult, renegava toda e qualquer
forma de produção voltada para as massas. Listava meus filmes por seus
diretores, estudava-os, questionava cada cena, discutia seus planos e carregava
junto com tanta dedicação um preconceito enorme por nada que não tinha em sua
alma uma marca conceitual. A gente vai ficando mais velho e começa a tentar se
livrar desses sentimentos pequeninos, a bagagem já tá pesada demais e eles
realmente fazem a diferença. E aí, depois de ser obrigada a consumir muito hi-5
e crepúsculo para se aproximar do filho e do irmão mais novo, já fica mais
fácil achar um meio termo e procurar a beleza escondida em cada produção.
Coincidência
ou não, ontem mesmo finalizei a leitura de um texto que considerava os dois
pontos de vista sobre o impacto da cultura de massa sobre a sociedade. Em um
trecho, que concordo com plenitude, o autor afirma: “Embora a cultura de massa
use às vezes formas padronizadas, isso não lhe é exclusivo, já que ocorre
igualmente na cultura erudita. Além disso, é perfeitamente possível apreciar
certas formas de cultura de massa ou de cultura popular sem aceita-las
totalmente. Uma vez que a cultura popular não é homogênea, não precisa ser
consumida como um todo. Certas partes podem ser escolhidas seletivamente, como resultado
de fatores sociais e culturais mais precisos do que os considerados pela teoria
da cultura de massa. O tipo de discriminação cultural exercido pelo público em
condições sociais particulares torna-se um interessante problema sociológico,
cujas soluções não podem ser definidas antecipadamente mas devem ser
determinadas empiricamente.” (“Cultura popular, uma introdução” de Dominic
Strinati).
O
que quero dizer, e precisei dessa enorme introdução para deixar claro o quanto
já pensei nesse assunto na minha vida, é que hoje tenho uma capacidade muito
maior (embora ainda não plena) de encontrar elementos realmente agradáveis nas
mais variadas produções de entretenimento. E, na verdade, algumas delas me
geram uma curiosidade e um prazer descompromissado sem igual. Amo Harry Potter,
como poucas vezes amei um personagem, e os filmes de super-herói me trazem uma
nostalgia gostosa demais de sentir.
(Impossibilitada
de frequentar as salas de cinema como gostaria, alugo muitos filmes. Sendo
assim, perdoem o efeito tardio que relatarei por aqui e sejam piedosos com a minha
passagem desigual de tempo)
http://www.tatibernardi.com.br/blog/post.jsp?idPost=92Ontem vi Thor. O primeiro que vejo depois de Homem de Ferro (1 e 2!!) da série de filmes que vai culminar nos Vingadores. Preciso, claro, fazer alguns comentários julgadores porque eu estou evoluindo mas ainda não sou nenhuma Madre Teresa: tem umas cenas na ponte do arco íris, meu deus, com efeitos coloridos absolutamente desnecessários. Temos logo no início um recorte na história que não sei nem identificar se foi um erro de edição ou mal gosto mesmo, que realmente atenta ao raciocínio do espectador (dou os créditos, foi uma observação de marido que é ainda mais exigente com detalhes do que eu!). Mas, gente, é o Thor, vai... Quem tem a minha idade entende, eu sei que não preciso de muitas palavras. É o Thor e aquele martelo sensacional imitando a Excalibur de Arthur! Diversão garantida.
Mas o
que eu quero mesmo falar é sobre a guerra entre irmãos que rola no filme.
Intertextualizando novamente, e não a toa, li um texto no blog da Tati Bernardes
ontem que falava sobre a importância de se ter um irmão e dizia que a melhor
coisa que você pode fazer por um filho é dar-lhe um. (http://www.tatibernardi.com.br/blog/post.jsp?idPost=92) Li, pensei a respeito. E
mais a noite vi Thor onde o vilão é nada menos do que irmão do herói. E pensei
a respeito.
Tenho
dois irmãos, um mais velho e um mais novo. Tenho dois filhos e a maior de todas
as motivações que nos levou a querer o segundo era exatamente o que a Tati
dizia em seu blog. Mas eu preciso admitir que nada é tão redondo quanto a gente
pensa quando o assunto é irmandade. A gente quer que dê certo e nos parece
lógico que vá dar: mesmo sangue, mesma casa, mesma criação. Aprendemos desde
pequeninos a dividir tudo, principalmente o amor de nossos pais. Deveria ser a
maior lição e o maior presente que se pode dar a um filho. Mas quando mexe com
sentimento, tudo fica menos redondo.
O
irmão de Thor, no final de contas, era apenas seu irmão de criação. Não sei se
os criadores quiseram colocar esse elemento para justificar sua canalhice mas
no final fica claro (ao menos para mim) que ele não passava de uma criança
tentando mostrar para seus pais que poderia ser tão bom quanto seu irmão. O
sentimento vira uma obsessiva comparação e o que era para ser companheirismo e
amor incondicional vira um problema de caráter.
Não
vou terminar esse texto dizendo que a culpa é dos pais e de como eles
conduziram a criação de cada filho porque ceder a esse clichê me ofende
pessoalmente. Sendo assim, só me resta deixar à sorte ( e à genética?!) essa
pesada responsabilidade. Ter irmãos é sim, um presente mas daqueles que a gente
precisa abrir a cabeça para conseguir entender, tipo pano de prato! A gente
ganha no Natal, não entende como alguém pode dar isso a alguém e só percebe o
quanto ele é fundamental quando o escorredor tá cheio de louça e a gente
precisa começar a enxugar.
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