quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Thor


Existiu um tempo em que eu, uma apaixonada pelo cinema cult, renegava toda e qualquer forma de produção voltada para as massas. Listava meus filmes por seus diretores, estudava-os, questionava cada cena, discutia seus planos e carregava junto com tanta dedicação um preconceito enorme por nada que não tinha em sua alma uma marca conceitual. A gente vai ficando mais velho e começa a tentar se livrar desses sentimentos pequeninos, a bagagem já tá pesada demais e eles realmente fazem a diferença. E aí, depois de ser obrigada a consumir muito hi-5 e crepúsculo para se aproximar do filho e do irmão mais novo, já fica mais fácil achar um meio termo e procurar a beleza escondida em cada produção.



Coincidência ou não, ontem mesmo finalizei a leitura de um texto que considerava os dois pontos de vista sobre o impacto da cultura de massa sobre a sociedade. Em um trecho, que concordo com plenitude, o autor afirma: “Embora a cultura de massa use às vezes formas padronizadas, isso não lhe é exclusivo, já que ocorre igualmente na cultura erudita. Além disso, é perfeitamente possível apreciar certas formas de cultura de massa ou de cultura popular sem aceita-las totalmente. Uma vez que a cultura popular não é homogênea, não precisa ser consumida como um todo. Certas partes podem ser escolhidas seletivamente, como resultado de fatores sociais e culturais mais precisos do que os considerados pela teoria da cultura de massa. O tipo de discriminação cultural exercido pelo público em condições sociais particulares torna-se um interessante problema sociológico, cujas soluções não podem ser definidas antecipadamente mas devem ser determinadas empiricamente.” (“Cultura popular, uma introdução” de Dominic Strinati).



O que quero dizer, e precisei dessa enorme introdução para deixar claro o quanto já pensei nesse assunto na minha vida, é que hoje tenho uma capacidade muito maior (embora ainda não plena) de encontrar elementos realmente agradáveis nas mais variadas produções de entretenimento. E, na verdade, algumas delas me geram uma curiosidade e um prazer descompromissado sem igual. Amo Harry Potter, como poucas vezes amei um personagem, e os filmes de super-herói me trazem uma nostalgia gostosa demais de sentir.



(Impossibilitada de frequentar as salas de cinema como gostaria, alugo muitos filmes. Sendo assim, perdoem o efeito tardio que relatarei por aqui e sejam piedosos com a minha passagem desigual de tempo)
http://www.tatibernardi.com.br/blog/post.jsp?idPost=92




Ontem vi Thor. O primeiro que vejo depois de Homem de Ferro (1 e 2!!) da série de filmes que vai culminar nos Vingadores. Preciso, claro, fazer alguns comentários julgadores porque eu estou evoluindo mas ainda não sou nenhuma Madre Teresa: tem umas cenas na ponte do arco íris, meu deus, com efeitos coloridos absolutamente desnecessários. Temos logo no início um recorte na história que não sei nem identificar se foi um erro de edição ou mal gosto mesmo, que realmente atenta ao raciocínio do espectador (dou os créditos, foi uma observação de marido que é ainda mais exigente com detalhes do que eu!). Mas, gente, é o Thor, vai... Quem tem a minha idade entende, eu sei que não preciso de muitas palavras. É o Thor e aquele martelo sensacional imitando a Excalibur de Arthur! Diversão garantida.



Mas o que eu quero mesmo falar é sobre a guerra entre irmãos que rola no filme. Intertextualizando novamente, e não a toa, li um texto no blog da Tati Bernardes ontem que falava sobre a importância de se ter um irmão e dizia que a melhor coisa que você pode fazer por um filho é dar-lhe um. (http://www.tatibernardi.com.br/blog/post.jsp?idPost=92) Li, pensei a respeito. E mais a noite vi Thor onde o vilão é nada menos do que irmão do herói. E pensei a respeito.



Tenho dois irmãos, um mais velho e um mais novo. Tenho dois filhos e a maior de todas as motivações que nos levou a querer o segundo era exatamente o que a Tati dizia em seu blog. Mas eu preciso admitir que nada é tão redondo quanto a gente pensa quando o assunto é irmandade. A gente quer que dê certo e nos parece lógico que vá dar: mesmo sangue, mesma casa, mesma criação. Aprendemos desde pequeninos a dividir tudo, principalmente o amor de nossos pais. Deveria ser a maior lição e o maior presente que se pode dar a um filho. Mas quando mexe com sentimento, tudo fica menos redondo.



O irmão de Thor, no final de contas, era apenas seu irmão de criação. Não sei se os criadores quiseram colocar esse elemento para justificar sua canalhice mas no final fica claro (ao menos para mim) que ele não passava de uma criança tentando mostrar para seus pais que poderia ser tão bom quanto seu irmão. O sentimento vira uma obsessiva comparação e o que era para ser companheirismo e amor incondicional vira um problema de caráter.



Não vou terminar esse texto dizendo que a culpa é dos pais e de como eles conduziram a criação de cada filho porque ceder a esse clichê me ofende pessoalmente. Sendo assim, só me resta deixar à sorte ( e à genética?!) essa pesada responsabilidade. Ter irmãos é sim, um presente mas daqueles que a gente precisa abrir a cabeça para conseguir entender, tipo pano de prato! A gente ganha no Natal, não entende como alguém pode dar isso a alguém e só percebe o quanto ele é fundamental quando o escorredor tá cheio de louça e a gente precisa começar a enxugar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
"No meio do caminho tinha uma pedra... tinha uma pedra no meio do caminho"