sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Contemplação

Para uma sexta feira com tempo duvidoso e um humor ainda sem definição decidir sobre o que escrever poderia ser um problema. Mas não é, nunca é, parece que eu vou morrer e ainda vou ter uma lista rechonchuda de temas e reflexões não feitas. Porque eu sou assim é tema para o coitado do meu analista trabalhar enquanto escuta meus disparates sábado de manhã (Fred que nada, guerreiro mesmo é quem acorda cedo no sábado para ouvir as confusões alheias, que fique claro!).



Mas, enfim, não é esse a questão.



O ponto hoje são os hábitos que a gente desenvolve e os outros que se perdem no caminho.

Quando eu era criança, muito antes de MP3, Ipods e facilitadores da vida moderna (reparem que eu pulei o CD!), me lembro bem que meu pai tinha uma mania deliciosa de chegar do trabalho e após os ritos tradicionais abrir uma latinha de cerveja e ir para a frente de um mega aparelho de som, super moderno para a época, vestir um mega headfone, daqueles que lembram os pilotos de avião, apagar as luzes e... nada! Lá ficar, por algumas horinhas, às vezes o cansaço deixava ser só alguns minutos. A ação incluía apenas contemplar um ócio invejável acompanhado de sua música favorita da vez. A relação dele com a música vinha de um tempo  embora ele nunca tivesse trabalhado com isso. Também me recordo de alguns eventos lá em casa, dele e minha mãe com casais amigos onde ele sempre era o DJ. Hoje, ele reserva para as noites de Natal em Itajubá esse pedacinho de memória da minha infância.



Acontece que esse era um hábito legal, pelo menos eu achava, e a influência que teve em mim e no meu irmão (mais até do que em mim) foi nada além de positiva. Meu irmão o tornou vital para a sua existência repetindo a mania noturna do meu pai em todo o seu inventário de horas do dia. Para mim, o que ficou não foi a música em si mas a contemplação. A luz apagada, o copo de cerveja, a liberação dos demônios que insistem em se instalar na gente durante o dia. E isso também virou vital para mim.



Meu pai, hoje, não apaga mais a luz e não tem mais um headfone de piloto de avião. Um dia vou perguntar a ele porque mas confesso que, por enquanto, prefiro deixar como está. Mas uma coisa é preciso admitir: ele nunca perdeu o hábito da contemplação. Deixou de ser noturno, acho que a idade não lhe permite mais, deixou de ser tão intimista, o headfone virou alto falante, deixou de ser diário, a vida já não tem mais o mesmo ritmo. Mas durante todo o final de semana, quando não está passando jogo do fluminense, ele fica sentado na mesma cadeira, bem na porta da varanda, com o mesmo copo de cerveja (pequenininho para não esquentar!) com o som ligado. Seus olhos variam entre a paisagem externa (que é a favela do salgueiro mas ele jura achar lindamente bucólico) e a brincadeira dos seus netos no chão da sala.



O tempo passa, os hábitos mudam. Mas, sabe de uma coisa, acho que a essência do que precisamos para viver, continua sempre a mesma.



Bom final de semana!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
"No meio do caminho tinha uma pedra... tinha uma pedra no meio do caminho"