Eu vou contar uma coisa para vocês: eu sou uma pessoa muito legal. Meus filhos são extremamente educados e eu tenho a certeza de que sou uma boa companheira para o meu marido. As pessoas gostam de mim: sou leitora nata, cinéfila, cervejeira, gosto de futebol. Sou engraçada e muito dedicada.
Mas não, eu não sou uma pessoa prática.
Hoje fui trabalhar de metrô, meio que nunca uso visto que a estação da General Osório fica no inicio de Ipanema e meu trabalho na Anibal de Mendonça, final do bairro. Mas hoje tive um desvio de rota antes da labuta e o metrô me pareceu a alternativa mais eficiente, porém, seguido de um ônibus até meu destino.
Quando saltei do metrô dei de cara com um dos bicicletários colocados na cidade pela prefeitura com o apoio do Itaú bem na saída da estação. Mas, claro, como é que eu não pensei nisso antes???
A primeira coisa que fiz quando cheguei no trabalho foi me cadastrar no site (http://www.mobilicidade.com.br/bikerio.asp) e garantir o meu passe por R$ 10,00 pelo período de 1 mês. A partir de hoje resolvo todos os meus problemas com o transporte público do Rio: vou pegar o metrô e em seguida a bike. Pedalo pela orla até a Anibal e a deixo no bicicletário de lá. Na volta, é só fazer o caminho oposto. É agradavél, é saudável, é sustentável, é econômico, é tudo de bom!
Só tem um problema que no auge da minha empolgação não me pareceu tão relevante: Eu não sei andar de bicicleta. Ou, me corrigindo para não soar dramática: eu não aprendi a andar como todos mundo, enquanto criança. Meu pai tentou, coitado, me comprou uma linda biclicleta, me levava para a orla mas eu nunca quis saber, tinha medo de cair. Quando fiz 15 anos resolvi que queria aprender e, novamente, o meu pai me comprou outra bicicleta. Eu até andei mas não mais que duas vezes. 10 anos depois em viagem ao Le Canton eu e meu marido alugamos duas bikes e eu me arrisquei a dar umas voltinhas. E esta é a minha relação com a magrela, nua e crua, em sua totalidade.
Mas isso não importa, claro, porque eu sou uma mulher independente que pode resolver este detalhe em alguns segundos desengonçados. Muito menos o fato de eu estar vestida com um vestido transpassado de tecido levinho. Menos ainda o fato de eu ter feito feira e estar com 3 mamões e 1 caixa de morango em uma sacola enquanto a outra ostentava um pacote de fralda pampers com 60 unidades e uma pasta carregada de textos que ando lendo.
Na volta para casa, fui eu para o bicletário da Anibal garantir minha laranjinha. O processo foi super simples e em segundos ela já estava comigo na ciclovia. A partir daí o peso da minha ansiedade se transformou em uma comédia pastelão.
Vendo a minha dificuldade em ajeitar o selim e decidir onde colocar todas as minhas sacolas e bolsa, um cara em meio a um grupo de gringos logo esclamou: "Do you need some help?!". Eu, me justificando o mais rápido que pude, apontei para as sacolas informando, em inglês, que estavam muito pesadas e que seria muito difícil de equilibrá-las. Tentei de tudo: pendurar no pescoço, apoiar no braço, socar todos os itens na micro cestinha da frente, nada parecia ter jeito. Até que me pareceu mais lógico (!!) dividir o peso e pendurar uma em cada lado do guidon. Voilá!
Isto feito, chegou o momento de subir na biclicleta. E, juro, não havia cristo que me fizesse mover um mísero centímetro aquelas rodas. Quando me dei conta o gringo estava de volta, fazendo apoio no selim e bradando:"it's ok! I'll push you!!"
Aceitei a gentileza e embalei algumas padaladas sem jeito enquanto gritava "thaaankk youuuu!" E ele, ao fundo: "Just keep going!!. Obedeci.
Foi tenso. As sacolas batiam na roda e me faziam tender para o lado. Para me equilibrar acelerava o máximo que minhas pernas sedentárias podiam aguentar e isso só aumentava o meu pavor: Estava contra o vento e meu vestido ameaçou levantar. No reflexo, a mão segurava o vestido e a bicicleta tombava. Ou freiava bruscamente ou ia parar no meio fio: na sequência de três vezes que isto aconteceu, a pessoa que seguia atrás me rogou um pequeno palavrão sussurado. Juro que eu um momento escutei um rapaz falando para o filho do calçadão: "Olha! Ela está aprendendo a andar de bicicleta!"
Não estava dando certo. Enquanto me dava conta do perigo ambulante que eu era em pleno calçadão de Ipanema, meti o lado esquerdo do guidon no braço de um corredor. Andei o suficiente para sair da vista dele e achei por bem que era melhor terminar o percurso a pé.
Convenhamos, é preciso muito coragem para aprender a andar de bicicleta em plena Ipanema em horário de verão. Não vou nem citar minha idade e o quanto ridículo foi cada pedalada na laranjinha mas, em minha defesa, posso afirmar que aquela ciclovia não é para amadores não. Parece fácil quando você vê de longe mas o povo anda super embalado, com fones nos ouvidos e olhos fixos à frente. Tá bem, eles tem anos de experiência a mais do que eu... mas a verdade é que ninguém tem muita paciência com adulto que resolve suas questões infantis em pleno espaço público.
Ao invés de chegar ao metrô com as pernas doloridas da pedalada, cheguei com as duas trêmulas e o que dóia mesmo era meu braço direito, o apoio da magrela na caminhada final até meu destino. De qualquer forma, a adrenalina me corria pelas veias e eu fiquei super animada. A gente não deve subestimar o poder desse hormônio no nosso organismo, principalmente nos efeitos que ele tem na nossa sensação de bem estar.
De maluca da ciclovia, passei a ser a maluca do metrô: ria de chorar, sozinha, para o nada, apoiada na pilastra enquanto o trem não chegava. Claro que ia dar tudo errado, o mínimo que eu podia ter feito era ter vestido uma calça jeans e não ter feito feira, Deus!
Se importa? Não. De uma certa forma eu não tenho mais medo de ser ridícula se eu achar que vale a pena. Amanhã eu tô de volta, com um pouco mais de prudência, claro. Mas tô de volta. Prometo que se eu cair eu conto! Por favor, não torçam para isto acontecer, sim?!
Você é louca !!!! Eu juro que consegui imaginar a cena do gringo... Vou levar as rodinhas ! Adorei o texto.
ResponderExcluirMuito bom o texto! E a idéia das rodinhas é uma boa! Pelo menos na primeira semana pra vc se sentir mais segura rs
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