Não
vou usar este espaço para falar sobre a minha perspectiva pessoal sobre como a
vida passeou por mim em 2011 mas vou dizer que uma das principais novidades se
deu em um certo “encontro com mim mesma” ou, como diria Clarice Lispector,
digamos que perdi minha terceira perna, que me dava estabilidade e descobri que
é só com duas que a gente pode andar.
Amo
essa metáfora (retirada, by the way, do livro “A paixão segundo G.H.”, um dos
melhores livros que eu já li em toda a minha vida) porque ela é bem “chavão”: a
mulher que vivia sua vida estagnada - e nem por isso era infeliz – versus esta
nova que descobre que quando se anda para frente virar a esquina pode ser uma
grande novidade. Aliás, já dizia Nando Reis algo parecido “segurança é o chão
de um imóvel, prefiro as pernas que me movimentam”.
O
que me atrai nesta rivalidade existencial é a tendência julgadora que todos nós
imputamos para alguns dos lados. Existe uma força natural que nos faz crer que
a estagnação é algo ruim, de natureza degradante e que todo e qualquer ser
humano neste estágio da vida está passando por uma crise. Eu mesma, por muito
tempo, associei felicidade à liberdade de ação e ao estar constante em
movimento, afinal, é preciso ir para frente. Reparem que perigo: liberdade =
movimento = felicidade.
Que
grande babaquice.
Muito
antes de eu chegar a esta conclusão, me lembro que a grande Phoebe (essa mesmo,
de friends) quando foi pedida em casamento por um delegado de polícia pelo o
qual era apaixonada teve esse mesmo insight. Ele disse: “eu acho que nós
devemos dar um passo adiante porque quem não anda para frente fica para trás”
no que ela respondeu: “isso não é verdade, quem não anda para frente fica
parado e ficar parado é ótimo, olha só” e então ela ficou parada sorrindo.
Existem
momentos em que é preciso ficar onde se está, digerindo, matutanto, assentando
a vida. Olhando para o teto sem fazer nada! Não, não é ouvindo música, é
fazendo nada mesmo! Há quanto tempo você não faz absolutamente nada sem se
sentir entediado?
Pois
é...
A
gente tem tanta mania se associar o “estar parado” a algo ruim que esquece que
são nesses momentos que nossa mente ganha condições de se projetar. Achamos que
estamos indo para frente e muitas vezes estamos apenas indo, ou sendo levados
se assim ficar mais claro. E é aí que todas as pessoas (ou personagens) que
citei até agora convergem: para ir para a frente de verdade, ás vezes, é
preciso estar parado.
Demorei
para entender isso. Como tive filhos muito cedo achava (e isto é um consenso
universal ao que me parece) que minha liberdade estaria condenada pelos
próximos 18 anos e que isto seria o lado ruim da maternidade. Mea culpa, fui
ingênua e despreparada (e isso sim é o lado ruim de ser mãe cedo!), mas o tempo
mostrou que a liberdade não tem nada a ver com mobilidade e, de longe, com o
fato de ir para frente ou para trás. Foi ficando no mesmo lugar, presa nas
madrugadas dando mamadeira e trocando fraldas, dançando a galinha pintadinha na
hora do almoço e gastando 1/3 do meu salário em fralda e leite, que subi níveis
inatingíveis para alguns no entendimento do ser humano. Foi socada num quarto
escuro tentando driblar o resfriado do meu filho que aprendi a ser paciente.
Foi na dureza da minha conta bancária que aprendi que (de verdade!) que
dinheiro não é mesmo tudo na vida. Foi pela ausência de tempo com meu marido
que entendi o quanto eu o amava e precisava dele por perto.
Ganhei
muitas expectativas, fato, mas não gosto do clichê que é preciso sofrer para
ver o lado bom da vida. Nada disso foi penoso, embora difícil, é uma construção
dúbia, onde o sorriso e a ruga de preocupação crescem lado a lado.
Um
bom final de ano, com menos gastos e mais ócio criativo, fica de desejo sincero.
Leiam Clarice, escutem Nando e vejam as reprises de Friends. Ajuda!

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