quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Das Clarices e Amandas

Peço desculpas a quem me lê pela ausência de tantos dias. Sim, foi necessário, muitos trabalhos a fazer e coisas a colocar em ordem dentro da caixola. Assim feito, vamos em frente!



Quem tem visto a minissérie “A mulher invisível” que passa na globo todas as terças lá para as tantas da noite (depois da sensacional “Entre tapas e beijos”) deve ter tido a mesma força estranha puxando o canto da boca, ensaiando um pequeno riso amarelo, como ontem me ocorreu. Preciso dizer, amo o Selton Melo e já tenho uma tendência natural a ser benevolente com tudo o que ele faz antes mesmo de assistir. Porém, como nem tudo na vida são sentimentos positivos, detestei o filme que dá nome a minissérie. Sem graça, arrastado, com um final clichê boring.. zzzz.


Mas, ontem, ah, ontem! Que diferença!  


Fui buscar o nome dos roteiristas que me escaparam na abertura e encontrei os nomes de Guel Arraes, Leandro Assis, Cláudio Torres e Mauro Wilson. A fonte não foi exatamente segura, então me perdoem se estou passando uma informação equivocada. Se estiver correto, confesso que choquei: sério que foram 4 homens que escreveram o roteiro de ontem?


Resumindo: o casamento de Clarice e Pedro está em crise porque ele não enxerga nela a mulher perfeita, que seria, no caso, a invisível, Amanda. O idiota deixa ela perceber isso e Clarice, com ego ferido, se sente tentada a se envolver com um outro rapaz que a enxerga de tal forma. Até aqui, problema zero, texto e temática total masculina, principalmente a forma da tal mulher ideal em choque com a real. Me veio na cabeça aquela velha história de “mulher para casar” e comparar esse clichê com a personalidade de Clarice e Amanda foi extremamente fácil, mesmo com as adaptações modernas.


Amanda é linda, gostosa, toma cerveja, ama sexo e se diverte com jogos de videogame de tiros. Não reclama de nada, está sempre a postos para servir seu homem da forma que melhor lhe convir e desaparece quando ele quer.


Clarice é independente e poderosa. Se veste com personalidade e cobra atenção, almoço na mesa, briga com a sogra. Enche o saco dele e tá sempre cobrando posturas melhores, carinhos constantes e amor incondicional.


A grande sacada destes caras quando escreveram o texto se revelou em uma das cenas finais está em um discurso feito por Amanda quando ela tenta convencer Pedro a ir atrás da mulher: Ela lhe explica que Clarice, na verdade, é a mulher que possibilita a existência de Amanda: “Eu sou todas as mulheres que você imagina ter perdido porque escolheu a Clarice. Sem ela, eu não existo!”




De repente eu entendi todo o propósito deste disparate. Que ninguém nunca vai ser ideal, todo mundo sabe, mas o que as pessoas não sabem é como lidar com isso. Pedro criou uma alternativa imaginária para lidar com sua frustação e ela é a única responsável por fazer seu casamento dar certo. Porque ele não responsabiliza sua mulher por todas as outras coisas que ele julga ter aberto mão por ela. Sem transferência. Sem culpa.


O lado feminino é que sai perdendo. Impossibilitada por nossa natureza romântica, Clarice não consegue ter um backup imaginário. Porque não é isso que nos faz completas: precisamos nos sentir amadas fulltime pelo mesmo homem, não por todos os machos do planeta. Talvez se ela tivesse um Pedro imaginário... humm..


Meninos, gênios.
Falaram de ego, de frustação, de escolha e de tudo o que ela implica. Entre homens e mulher, sobre homens e mulheres. Foram sutis, precisos e extremamente sensíveis também ao universo feminino, às nossas mulheres poderosas e independentes.


Tem certeza de que não tem um toque feminino nessa escrita não???!!

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"No meio do caminho tinha uma pedra... tinha uma pedra no meio do caminho"