Peço
desculpas a quem me lê pela ausência de tantos dias. Sim, foi necessário,
muitos trabalhos a fazer e coisas a colocar em ordem dentro da caixola. Assim
feito, vamos em frente!
Quem
tem visto a minissérie “A mulher invisível” que passa na globo todas as terças
lá para as tantas da noite (depois da sensacional “Entre tapas e beijos”) deve
ter tido a mesma força estranha puxando o canto da boca, ensaiando um pequeno
riso amarelo, como ontem me ocorreu. Preciso dizer, amo o Selton Melo e já
tenho uma tendência natural a ser benevolente com tudo o que ele faz antes
mesmo de assistir. Porém, como nem tudo na vida são sentimentos positivos,
detestei o filme que dá nome a minissérie. Sem graça, arrastado, com um final
clichê boring.. zzzz.
Mas,
ontem, ah, ontem! Que diferença!
Fui
buscar o nome dos roteiristas que me escaparam na abertura e encontrei os nomes
de Guel Arraes, Leandro Assis, Cláudio Torres e Mauro Wilson. A fonte não foi
exatamente segura, então me perdoem se estou passando uma informação
equivocada. Se estiver correto, confesso que choquei: sério que foram 4 homens
que escreveram o roteiro de ontem?
Resumindo:
o casamento de Clarice e Pedro está em crise porque ele não enxerga nela a
mulher perfeita, que seria, no caso, a invisível, Amanda. O idiota deixa ela
perceber isso e Clarice, com ego ferido, se sente tentada a se envolver com um
outro rapaz que a enxerga de tal forma. Até aqui, problema zero, texto e
temática total masculina, principalmente a forma da tal mulher ideal em choque
com a real. Me veio na cabeça aquela velha história de “mulher para casar” e
comparar esse clichê com a personalidade de Clarice e Amanda foi extremamente
fácil, mesmo com as adaptações modernas.
Amanda
é linda, gostosa, toma cerveja, ama sexo e se diverte com jogos de videogame de
tiros. Não reclama de nada, está sempre a postos para servir seu homem da forma
que melhor lhe convir e desaparece quando ele quer.
Clarice
é independente e poderosa. Se veste com personalidade e cobra atenção, almoço
na mesa, briga com a sogra. Enche o saco dele e tá sempre cobrando posturas
melhores, carinhos constantes e amor incondicional.
A
grande sacada destes caras quando escreveram o texto se revelou em uma das
cenas finais está em um discurso feito por Amanda quando ela tenta convencer
Pedro a ir atrás da mulher: Ela lhe explica que Clarice, na verdade, é a mulher
que possibilita a existência de Amanda: “Eu sou todas as mulheres que você
imagina ter perdido porque escolheu a Clarice. Sem ela, eu não existo!”
De
repente eu entendi todo o propósito deste disparate. Que ninguém nunca vai ser
ideal, todo mundo sabe, mas o que as pessoas não sabem é como lidar com isso.
Pedro criou uma alternativa imaginária para lidar com sua frustação e ela é a
única responsável por fazer seu casamento dar certo. Porque ele não
responsabiliza sua mulher por todas as outras coisas que ele julga ter aberto mão
por ela. Sem transferência. Sem culpa.
O
lado feminino é que sai perdendo. Impossibilitada por nossa natureza romântica,
Clarice não consegue ter um backup imaginário. Porque não é isso que nos faz
completas: precisamos nos sentir amadas fulltime pelo mesmo homem, não por
todos os machos do planeta. Talvez se ela tivesse um Pedro imaginário... humm..
Meninos,
gênios. Falaram
de ego, de frustação, de escolha e de tudo o que ela implica. Entre homens e
mulher, sobre homens e mulheres. Foram sutis, precisos e extremamente sensíveis
também ao universo feminino, às nossas mulheres poderosas e independentes.
Tem
certeza de que não tem um toque feminino nessa escrita não???!!
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